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AP 03 - V

Eu
perco o foco,
a fome,
o destino.
Vivo enfadado,
engarrafado.
Como percorrer
as mesmas ruas
da cidade
sem perceber
que elas são
sempre iguais,
desiguais.

AP 03 - IV

Estou em ostracismo,
como uma ostra
que, vivendo no mar,
prefere estar na praia.

Como versos,
de uma poesia ácida,
soando básico
aos nossos ouvidos.

Feito vento,
podendo voar lá fora,
vem até mim,
sentado no sofá da sala.

AP 03 - III

Choveu pouco agora a pouco
e do pouco, de agora,
está tudo molhado.
As músicas.
As palavras.
Os sentidos.

Agora, a pouco, choveu.
e então, o pouco, molhou.
Os tons.
As letras.
O corpo.

E daí se choveu?
E daí se molhou?
E daí se sinto frio?
E daí se a rádio
não toca a música
que gosto de ouvir?
E daí se me compram?
(eu gosto de me vender)



AP 03 - II

Li uma poesia
escrita em um papel sujo.

Num sujo papel
estava uma poesia que li.

Agora a poesia está em mim
e eu estou na poesia,
em um sujo papel
para ser lido também

AP 03 - I

Coloquei as frutas na fruteira.
As coisas dos bolsos pela mesa.
Abri as janelas e, sentado, voei.

Fui e voltei quantas vezes quis,
quando quero, quando preciso.

Mas, sentado,
permaneço voando
ociosamente.